Mitos e esterótipos da violência doméstica
Atualmente é muito frequente a condenação da violência contra as mulheres, no entanto alguns mitos e estereótipos feitos pela sociedade/ cultura levam a que haja uma diminuição no processo da denúncia das situações e, por esse motivo, muitas vítimas acabam por sentirem-se inferiores e incapazes de reagir ao abuso ou de pedir ajuda quando a violência se estabelece nas suas relações. Assim sendo, é muito importante desconstruir estes falsos argumentos, desmistificá-los e combatê-los.
Exemplos de falsas crenças/mitos:
"ENTRE MARIDO E MULHER NÃO SE METE A COLHER"
Este provérbio popular leva a querer que as situações de violência conjugal é algo privado que só diz respeito ao casal, ou seja, é uma posição contrária aquela que atualmente defendemos, visto que nos dias de hoje a violência doméstica é um crime público ao qual qualquer pessoa pode e deve interferir.
“A MULHER SO É AGREDIDA PORQUE NÃO FAZ NADA PARA EVITAR OU PORQUE MERECE!"
Este mito está associado à crença de que o homem “tem o direito” de bater na mulher e que as responsabilidades dos atos de violência estão intrinsecamente associadas à questão que muitos cidadãos e profissionais colocam à vítima: “Porque é que não deixa o agressor? “ou “porque é que não sai de casa? “. A primeira ideia é proveniente na falsa crença de que a mulher tem o poder de conseguir acabar com a situação abusiva quando quiser, mas o interromper da situação é muito complexo e exige coragem e alguma capacidade emocional por parte da vítima. A segunda crença está associada à legitimidade social que, durante muito tempo, apoiava a violência por parte dos homens ao filhos e esposa porque associavam a algo que servia como educação/correcção ou a papéis de género em que a mulher tinha de obedecer ao marido e eram agredidas se, por exemplo, “não fizessem o jantar a horas”.
"BATER É SINAL DE AMOR"
Bater nunca foi, nem nunca vai ser, um sinónimo de amor ou algo legítimo para justificar qualquer tipo de controlo. Além disso, a violência doméstica não é regida por uma “uma bofetada de vez em quando, mas sim “um padrão continuado de violência exercida de diversas formas”.
" A VIOLÊNCIA SÓ OCORRE EM ESTRATOS SOCIOECONOMICOS MAIS DESFAVORECIDOS"
As vítimas e os agressores são provenientes de qualquer classe social, a violência é transversal aos diferentes padrões culturais, religiosos e económicos. No entanto há estudos que afirmam que as estatísticas indicam que é mais frequente nos estratos socioeconómicos mais desfavorecidos, o que pode ser consequência de fatores culturais e educacionais presentes nesses estratos ou resultado de uma maior visibilidade das vítimas e agressores destes estratos porque devido á falta de alternativas económicas e sociais, tendem a recorrer em maior número aos serviços de apoio á vítima e em menor número aos tribunais.
"A VIOLÊNCIA SÓ OCORRE SOBRE O EFEITO DE ALCOOL OU OUTRAS DROGAS"
Não se pode afirmar que o uso de álcool ou de drogas é a causa para a violência doméstica ou considerar que as situações de violência só ocorrem sob efeito dos mesmos, mas podemos afirmar que, em certas ocasiões, é facilitador ou desencadeia as situações de violência. Em caso contrário, não haveria agressores que nem consomem álcool e que a maioria agride mesmo quando não está sob efeito de qualquer substância.
Podemos concluir que o consumo de álcool e drogas é uma desculpa para evitar a responsabilidade dos comportamentos violentos, dizer “não fui eu, foi o álcool “ou “só aconteceu porque bebi demasiado“, é uma estratégia bastante cabível, mas, habitualmente, os agressores embriagam-se fora de casa e esperam até chegar á sua habitação para agredir mulher e/ ou filhos.
"A VIOLÊNICA DOMESTICA RESULTA DE PROBLEMAS DE SAUDE MENTAL"
Esta é uma ideia que muitos cidadãos e profissionais defendem, mas estudos internacionais indicam que apenas 5% a 10 % dos agressores é que são provenientes de qualquer tipo de perturbação mental. Em alguns casos, esta ideia é procedente do processo difícil que é aceitar que a violência pode ser exercida por “indivíduos normais”.
"AS CRIANÇAS QUE SÃO VITIMAS DE MAUS TRATOS, NO FUTURO , MAL TRATANTES OU AGRESSORES PODEM JÁ TER SIDO VITIMAS"
É correto afirmar que uma criança que é vítima, de forma direta ou indireta, de violência poderá adquirir uma maior probabilidade de maltratar no futuro, mas não se pode afirmar que as vítimas poderão ser, efetivamente, agressoras ou que os agressores são agressores porque foram vítimas.
(Manita, Ribeiro, & Peixoto, 2009, pp. 20-25)
Fonte : Manita, C., Ribeiro, C., & Peixoto, C. (2009). Em Violência Doméstica : Compreender para Intervir, Guião de Boas Práticas para Profissionais de saúde (pp. 16-32). Lisboa: Sersilito, Empresa Gráfica, Lda.